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História preservada: Julho Cultural e Corrida de Canoa de Acupe tornam-se lei no calendário oficial

Conquista histórica para o distrito de Santo Amaro reconhece manifestações seculares como o Nêgo Fugido, as Caretas e a relação ancestral com o mar.

Porto de Acupe

O distrito de Acupe, em Santo Amaro, celebra uma vitória que ecoa séculos de resistência e arte popular. Pela primeira vez na história, o Julho Cultural e a tradicional Corrida de Canoa de Acupe foram integrados ao Calendário Oficial do Município através de lei. A medida não é apenas uma formalidade burocrática; é o reconhecimento institucional de que este território guarda um dos patrimônios vivos mais importantes do Recôncavo Baiano.

A oficialização assegura que manifestações que atravessam gerações tenham visibilidade, respeito e, fundamentalmente, garantia de continuidade. Ao transformar a festa em política pública, o município protege a essência de um povo que nunca deixou suas raízes morrerem, celebrando a ancestralidade que moldou a identidade cultural da região.

Um santuário de manifestações populares

O Julho Cultural de Acupe é muito mais do que uma agenda de eventos; é uma imersão profunda na história do Brasil. Quem caminha pelas ruas do distrito neste período encontra personagens que parecem ter saltado dos livros de história e da memória oral. Entre os destaques agora protegidos por lei estão as Caretas de Acupe. Surgidas no século XIX, essas figuras mascaradas, originalmente confeccionadas com papel machê pelos próprios moradores, representam a irreverência e a criatividade popular, interagindo com a comunidade em um espetáculo de cores e mistério.

Outro pilar dessa celebração é o Nêgo Fugido, uma das dramatizações mais potentes das Américas. A performance, que mistura teatro, dança e cânticos, encena a perseguição e a libertação dos escravizados, mantendo viva a lembrança da luta pela liberdade e a força do povo negro. A lei também abraça o Samba de Roda — Patrimônio Imaterial da Humanidade — e outras manifestações singulares como o Bombacho, o Mandu, a Burrinha e as caretas de borracha. Todas essas expressões compõem um mosaico que narra a vida, a fé e a alegria de uma comunidade que tem orgulho de seu saber.

A força que vem das águas: A Corrida de Canoa

Se o Julho Cultural celebra a memória da terra, a Corrida de Canoa celebra a vida que vem do mar. A inclusão desta competição no calendário oficial é uma homenagem à vocação pesqueira de Acupe. A corrida é uma tradição secular que reflete a relação íntima e diária dos moradores com a Baía de Todos-os-Santos.

Muito além de uma disputa esportiva, o evento exalta o talento, a coragem e a força de trabalho dos remadores e pescadores locais. A canoa e a rede não são apenas instrumentos de trabalho; são símbolos de sustento e de união comunitária. Ao oficializar a corrida, a lei reconhece que a cultura de Acupe é anfíbia: ela vive no asfalto com as caretas e nas marés com os pescadores, formando uma identidade única que agora, finalmente, tem o reconhecimento legal que merece.